‘Perdemos o filho e o que construímos a vida toda’, diz Cirilo

Foto: Douglas Figueiredo

Família relata descaso da Prefeitura de Francisco Morato em relação à morte do filho

Desde o dia 20 de fevereiro deste ano, as vidas do eletricista Cirilo Brito Conceição (40) e da diarista Cleonice dos Santos Conceição (37) nunca mais foram as mesmas. Isso porque um deslizamento de terra na Avenida Moacir Félix, no bairro Jardim São João, em Francisco Morato – região norte da Grande São Paulo -, tirou a vida de um dos filhos do casal. Alexandre dos Santos (10) morreu após o desabamento da laje da casa onde morava com os seus pais e mais dois irmãos. O menino chegou a ser resgatado com vida e encaminhado a Santa Casa da cidade, mas, infelizmente, não resistiu aos ferimentos.

Desde então o casal vem buscando justiça. De acordo com Cirilo, o trágico acidente jamais teria acontecido se a prefeitura da cidade tivesse acatado seu pedido para a remoção do acúmulo de terra. Segundo ele, nas duas vezes em que foi até o prédio da prefeitura efetuar o pagamento do IPTU do imóvel, solicitou ajuda para a retirada do barranco que apresentava riscos de deslizamento. Entretanto, nas duas vezes a “petição” foi negada.

“Eu fui na prefeitura buscar o carnê do IPTU e pedi ajuda para tirar um pedaço do barranco. Ou seja, não era para limparem o terreno, era só para me ajudarem a tirar um pedaço do barranco. O pedaço que se soltou e soterrou meu filho. Mas me falaram que como o terreno era particular o problema era meu”, diz o pai do menino.

Leia também: “Eu saio mas parece que estou cometendo um crime”, diz paciente de Francisco Morato recuperada da covid-19

Um outro apontamento feito pelos moradores do bairro, é o de que o socorro não teria atendido o chamado por conta da situação da rua. Ou seja, como a via não é asfaltada, em dias de chuva a lama toma conta da região e a passagem de carros se torna impossível. Para eles, as chances de Alexandre ainda estar vivo seriam maiores se ele tivesse recebido os primeiros socorros ainda no local. De acordo com as pessoas que ajudaram no resgate do garoto, ele foi retirado e levado ao hospital com vida.

“Meu maior arrependimento foi ter comprado ali”.

Cleonice Santos, mãe de Alexandre.

Uma das vizinhas, Angélica Alves (28), conta que ela e mais 5 pessoas ajudaram no resgate e que eles chegaram a escavar os escombros com as próprias mãos. “Era por volta das 15:20 quando ouvimos o barulho e corremos para ver o que estava acontecendo. Comecei a gritar por ajuda e apareceram 5 rapazes. Começamos a cavar para tirar o concreto. Enquanto isso outras pessoas tentavam chamar o resgate, mas ninguém apareceu. Ficamos umas duas horas tentando tirar ele de lá. Quando conseguimos, descemos com ele, o colocamos em uma perua e o levamos para o hospital”.

Sem apoio da prefeitura

Na data do acidente a prefeita de Francisco Morato, Renata Sene (PRB), chegou a emitir uma nota lamentando o ocorrido. Renata também dizia se colocar à disposição da família para prestar-lhe todo o apoio que fosse necessário. Contudo, Cirilo afirma que não houve nenhuma ajuda por parte do executivo municipal e que o Auxílio Aluguel no valor de R$ 300,00 só foi disponibilizado 2 meses após a calamidade e, segundo ele, depois de muita insistência.

Reprodução/Facebook

“Não me ajudaram com nada. Se disseram que ajudaram estão mentindo. Fiquei 15 dias sem conseguir dormir; eu mesmo fui atrás de ajuda psicológica lá no CRAS. O Auxílio Aluguel só conseguimos 2 meses depois e com muita luta. Graças ao pessoal do MLB (Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas) que vieram aqui e me ajudaram. Pela prefeitura estaríamos morando debaixo da ponte”, conta Cirilo visivelmente emocionado.

Leia também: Franco da Rocha é o município com o maior número de ocorrências de estupro da região

Aliás, o Auxílio Aluguel é outro assunto que tem preocupado a família de Alexandre. O benefício está previsto para terminar em setembro, no entanto, a casa onde ocorreu o acidente continua interditada pela Defesa Civil e não há previsão de quando será liberada para ser habitada novamente. Cirilo, sua esposa e seus dois filhos – Diogo (16) e Ana Julia, de 1 ano e 4 meses -, estão morando de aluguel e não sabem o que irão fazer quando o pagamento do auxílio terminar.

“Eu me endividei todo comprando aquele lote e construindo o barraco onde morávamos. Não tenho condições de pagar aluguel no momento. A verdade é que perdemos o filho e o que construímos a vida toda. Esses móveis que estão aí, foram todos doados pra gente, se não fosse a ajuda das pessoas não teríamos nada […] eu não sei o que vou fazer”, desabafa Cirilo.

Alexandre dos Santos Brito, 10 anos.
Avenida Moacir Félix, bairro Jardim São João - à direita: casa onde aconteceu a tragédia
Certidão de óbito de Alexandre. Causa da morte: Asfixia Mecânica e Soterramento
Pedaço do barranco que causou o deslizamento
Local que a laje desabou e vitimou o menino Alexandre
Pedaço da laje que desabou
Protocolo de pedido do Auxílio Aluguel que é destinado a vítimas de deslizamento/desmoronamento

Em suma, o Portal Epifania procurou a prefeitura de Francisco Morato para comentar sobre o caso e saber o que realmente foi feito para ajudar a família. Também foi questionado sobre as condições da rua e quais melhorias foram feitas após o acidente. Além disso, perguntamos sobre a situação do Auxílio Aluguel e o que será feito após o término do benefício, porém, até a publicação desta matéria não obtivemos nenhuma resposta.