”Não são só jornalistas negros que precisam escrever sobre desigualdade racial” afirmou a ganhadora do prêmio Pulitzer Nikole Hannah-Jones

Nikole Hannah-Jones no 15° Congresso da Abraji

A repórter do The New York Times, esteve ao vivo na palestra ministrada pelo 15° Congresso da Abraji, sobre ‘racismo dentro e fora das redações’ neste final de semana

A necessidade de mudança em que a cobertura jornalística se encontrava, não é tão recente. O racismo estrutural sempre existiu no Brasil desde a escravidão, e atualmente o jornalismo entendeu que precisava ‘racializar’ as coberturas, informar o problema existente, não bastando só dizer que “um jovem foi morto”, mas sim que “um jovem negro foi morto’’.

Hoje em dia há muitos veículos independentes que cobrem sobre desigualdade, como a Ponte Jornalismo, Agência Mural e tantos outros que fazem a diferença e preenchem uma lacuna inestimável de informação social.

Em contraponto, a maioria de jornalistas nas redações são brancos como mostram os números do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – 2015) em que apenas 22% dos jornalistas que estão em postos formais, são negros.

Segundo o DIEESE, os jornalistas negros ganham 30% menos que os brancos. O Censo da Educação Superior/Inep 2016 apurou que apenas 40% dos estudantes de jornalismo são pretos ou pardos e o GEMAA (Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa) apurou que entre os colunistas dos principais jornais no Brasil, 68% são homens brancos, enquanto apenas 4% são homens e mulheres negras.

foto de nappy.co/ Reprodução

As jornalistas Flavia Lima (Folha de S. Paulo) e Yasmin Santos (Revista Piauí) e Nikole Hannah-Jones (The New York Times) falaram sobre isso na palestra, do congresso da Abraji. A repórter do The New York Times, afirmou que a cobertura sobre desigualdade racial deve ser feita por todos, independentemente de sua cor.

“ Em primeiro lugar não são só jornalistas negros que precisam escrever sobre desigualdade racial, os brancos também têm uma raça, eles fazem parte da sociedade na sua raça…E mesmo se você não está escrevendo sobre raça, o fato de não estar escrevendo, significa que você está escrevendo sobre raça“.

Oportunidade efetiva

Geralmente quando se abrem vagas, perguntam-se para jornalistas se eles têm indicações, eles até indicam, porém eles não são contratados. De acordo com Nikole, é muito frustrante ouvir que os colegas não se encaixavam no cargo. A gente está fingindo que quer preencher esses cargos e depois a gente finge que não consegue achar negros qualificados para preencher esses cargos. É uma mentira!” declarou a ganhadora do Pulitzer.

As jornalistas cobraram por mais oportunidades e maior apoio para jornalistas negros, além de ressaltar a importância de todos estudarem sobre raça, sua história e sociologia para compreender a dinâmica de seu país. Nikole Hannah-Jones finalizou deixando uma reflexão para todos os colegas de profissão.

“O que você está fazendo na prática, para que a cobertura seja mais justa e para que jornalistas negros façam o trabalho que desejam fazer? Quando você consegue fazer um colega entrar, se você é branco, como é que você o trata? Como é que você apoia esse jornalista, quais são as oportunidades para que aquele jornalista continue naquela redação?”