Engravidar utilizando métodos contraceptivos é mais comum do que parece

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Por Cassiane Lopes e Douglas Figueiredo

Ginecologistas alertam que qualquer método contraceptivo pode falhar

Em algum momento da sua vida você já deve ter escutado que “com tantos métodos contraceptivos que existem hoje em dia, só engravida quem quer!”. No entanto, especialistas afirmam que isto é um tremendo equívoco. Segundo ginecologistas, os métodos contraceptivos não são 100% confiáveis e estudos afirmam que há muitas mulheres que têm certa “resistência” aos efeitos dos anticoncepcionais.

Uma pesquisa realizada na Universidade do Colorado nos Estados Unidos e publicada na revista “Obstetrics and Gynecology”, mostrou que uma em cada 20 mulheres carrega alguns genes que são capazes de burlar o efeito dos métodos anticoncepcionais.

O pesquisador e autor do estudo Aaron Lazorwitz e seus colegas, estudaram o DNA de 350 mulheres que utilizavam um implante anticoncepcional, este consiste em um Chip Contraceptivo sob a pele do braço, que libera hormônio continuamente para evitar que a mulher ovule.

Eles constataram que 5% das participantes tinham genes que produziam uma enzima chamada ‘CYP3A7’ que atua quebrando o efeito do contraceptivo.

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Em entrevista para o portal UOL, a ginecologista e especialista em reprodução humana Renata de Camargo, disse que o único método 100% seguro para não engravidar é não transar.

Todos os métodos contraceptivos têm índices de falha e, por menores que sejam, não garantem a segurança total da mulher quando o assunto é gravidez“.

Renata de Camargo
Fonte: Critérios Médicos de Elegibilidade para Uso de Contraceptivos (OMS-2009)

Em 2016, a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fiocruz, divulgou uma pesquisa – realizada entre 2011 e 2012 com mais de 24 mil mulheres de todo o país –, e   apontou que mais de 55% das brasileiras com filhos não planejaram engravidar.

Essa porcentagem está acima da média mundial de gestações não planejadas, que é de 40%.

Além disso, como resultado de gestações indesejadas, mais de 500 mil abortos clandestinos são realizados todos os anos no Brasil – os dados são da Pesquisa Nacional do Aborto, realizada pelos professores Débora Diniz (Universidade de Brasília), Marcelo Medeiros (UnB) e Alberto Madeiro (Universidade Estadual do Piauí).

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O Portal Epifania conversou com algumas mulheres que tiveram a experiência da gravidez não planejada. Danielli Faria tem 32 anos e é moradora de Magé – município da Baixada Fluminense, situado na região metropolitana do Rio de Janeiro. “A Maria Fernanda (11) foi uma gravidez planejada, eu desejei engravidar. Já o Luiz Miguel (07) eu tomava anticoncepcional de forma contínua, há 4 anos, e quando eu descobri a gestação já estava com 18 semanas”.

Danielli conta que na época estava casada com seu ex-marido e que ambos tomaram um susto quando descobriram a gravidez. “Ninguém esperava. Eu estava fazendo um curso de radiologia e tive que interromper, isso para mim foi um processo muito doloroso. Eu entrei em depressão, emagreci muito, fiquei muito triste. Não era o que eu queria naquele momento. Nem eu e nem o pai do Miguel. A gente queria sim, um filho, mas não da forma que aconteceu”.

André Borges/Agência Brasília

Mas, apesar de toda situação inesperada, ela conta que depois que passou o susto e que se adaptou com a realidade de uma nova gravidez, no final deu tudo certo.

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Outra pessoa que passou por uma situação parecida foi Leticia Oliveira, de 23 anos e moradora de Uberlândia, município do interior de Minas Gerais. Ela conta que por 2 anos fez uso de anticoncepcional e preservativo, além de acompanhar seu ciclo por meio de um aplicativo. Segundo ela, a “falha” teria acontecido em dezembro de 2018 quando notou que a camisinha tinha furado. “Mesmo com o anticoncepcional em dia eu entrei em pânico, porque tinha olhado no aplicativo e nele dizia que eu estava ovulando, então tomei a pílula do dia seguinte. Depois descobri que quem toma anticoncepcional não ovula, a minha teoria é que o remédio que eu tomei para tratar infecção urinária tenha cortado o efeito […] descobri minha gravidez com 3 meses, foi um baque imenso, mistura de medo e desespero, porque eu tinha acabado de passar na UFU (Universidade Federal de Uberlândia)”.

Reprodução

Leticia também disse que depois que a pandemia acabar pretende colocar o DIU (Dispositivo Intrauterino), mas sem dispensar, jamais, o uso da camisinha. Ao ser questionada como ela reage quando ouve alguém dizer que “só engravida quem quer”, ela disse: “Primeiro eu rio. Depois fico irritada. Por fim, tento explicar, mas não é todo mundo que tá disposto a ouvir”.

Apesar dos ginecologistas considerarem o DIU um dos contraceptivos mais eficazes que existem, ainda assim, ele não é 100% seguro.

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Karoline Carvalho tem 30 anos e é moradora da Ceilândia – região administrativa do Distrito Federal. Ela conta que depois do primeiro filho, optou pelo Dispositivo Intrauterino de cobre e que a cada 3 meses fazia a revisão. No entanto, depois que a menstruação atrasou, ela decidiu fazer um teste de gravidez de farmácia e posteriormente um de sangue, e ambos deram positivo. Contudo, a surpresa não parou por aí. Após procurar um posto médico e realizar um ultrassom, Karoline descobriu que estava grávida de gêmeas e que o DIU estava no colo do útero.

Após a primeira consulta a ginecologista me disse que a gravidez não iria pra frente, pois gravidez com DIU é abortiva. No terceiro mês retornei para consulta e estava tudo bem, então o médico optou por retirar o dispositivo. Tive uma gestação normal. Cada uma nasceu com quase 3 quilos, tudo perfeitinho, e hoje minhas filhas tem 10 anos de idade”, disse Karoline.

Ela também relata que por conta da gravidez imprevista ela acabou tento dificuldades financeiras e problemas emocionais.

Não foi fácil. Além do susto eu não tinha uma estrutura muito boa. O pai delas não me ajudou com nada, foi completamente ausente. Chorei por dias até conseguir aceitar que estava grávida de duas crianças. Mas, depois, foi só alegria. São os amores da minha vida”.

Karoline Carvalho

Ausência Paterna

De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de 2013, quase 6 milhões de crianças brasileiras não tem o nome do pai na certidão de nascimento. Até o ano da publicação o estado do Rio de Janeiro tinha o maior número de crianças nessa situação, com cerca de 677.676 crianças.

Os dados escancaram a realidade da situação familiar no Brasil, como aponta esse gráfico do Censo Demográfico feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE):

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O censo que fala da ‘proporção de famílias com mulheres responsáveis pela família’ aponta que 87,4% das mulheres responsáveis pelos filhos, são sozinhas. E apenas 22,7% das mulheres com filhos, tem algum cônjuge.

Em apenas uma década, houve um aumento significativo de 1,1 milhão de famílias compostas por mães solteiras. No ano de 2005, o país tinha 10,5 milhões de famílias de mulheres sem cônjuge e com filhos. Em 2015, o número chegava a 11,6 milhões arranjos familiares com mães sozinhas.

Outro dado alarmante é do Estadão Dados em parceria com o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope): A pesquisa diz que a chance de ser mãe solteira na periferia é até 3,5 vezes maior do que no centro de São Paulo, por exemplo.

E embora exista uma parcela até significativa de pais presentes, metade deles não ajudam na criação dos filhos. Segundo estudo, apenas 55% se responsabilizam por dar banho. Metade das mães que moram junto com os pais dos filhos, têm que cuidar das crianças praticamente sozinhas.