Artigo | Brasil cada vez mais parecido com Gilead da série de TV ‘The Handmaid’s Tale’

Arte: Butcher Billy

Neste domingo (16) religiosos tentaram impedir um aborto autorizado pela justiça, após uma criança de dez anos, vítima de abuso sexual por quatro anos, engravidar do próprio tio.

Após serem liderados pela militante de extrema direita e grande apoiadora do governo Bolsonaro, Sara Fernanda Giromini, conhecida como Sara Winter, um grupo de religiosos, intitulados de “pró-vida”, causou grandes polêmicas em frente a um hospital em Recife ao chamar de “assassinos” a equipe médica que realizaria o aborto. Com a grande repercussão do caso, comparações entre o atual governo e a série The Handmaid’s Tale repercutiram nas redes.

Baseada no livro da escritora canadense Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale, com o título em português, O Conto da Aia, é uma série distópica que conta a história dos Estados Unidos após sofrer um atentado terrorista por uma facção extremista que toma o poder com o intuito declarado de restaurar a paz. O grupo transforma o país na República de Gilead, instaurando um regime de castas totalitário, baseado nas leis do antigo testamento, retirando os direitos das minorias e, principalmente, das mulheres. Em meio a isso, são criadas as “handmaids” (aias), mulheres cujo único fim é procriar para manter os níveis demográficos da população.

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Em Gilead, todo mês, acontece “A Cerimônia”, um ritual sexual obrigatório quando homens de alto escalão e suas esposas forçam suas aias a conceber uma criança, ou, melhor dizendo, um estupro ritualizado. As crianças, na série, também cumprem papéis. Desde pequenas, meninas são ensinadas que precisam engravidar para agradar o “Deus” e cumprir seu papel na sociedade.

A ficção assusta, mas a vida real é ainda mais alarmante. Segundo o Ministério da Saúde, três crianças ou adolescentes são abusadas sexualmente a cada hora no Brasil. Meninas são o principal alvo, sendo que 73% dos casos ocorrem na casa da própria vítima, como ocorrido com a menina de dez anos.

O caso revelado no dia 7 de agosto no Espírito Santo, veio à tona após a criança ser levada a um hospital queixando-se de dores abdominais e descobrir que estava grávida. A menina então relatou que começou a ser abusada pelo próprio tio desde que tinha 6 anos e que não o denunciou porque era ameaçada.

Os paralelos entre a série e o atual governo, são muitos. O mais chocante desses, sem dúvidas, foi o fato do aborto autorizado pela justiça causar mais revolta do que o estupro e todos os traumas que a criança viveu e carregará para o resto da vida.

A conduta dos “religiosos” que escolheram passar por cima dos crimes com a justificativa de que uma gravidez é um “ato divino”, não pode ser esquecida e precisa ser observada. Discursos de ódio, escondidos atrás de ideologias cristãs e revolucionárias, mudaram o rumo da liberdade de um país na ficção, assim como na vida real, extremistas inteligentes e bem articulados na mídia, mudaram rumos de nações desacreditadas no passado. Em um país que vive um momento dividido como o nosso, não corremos esse risco?