Aborto: Quando o extremismo é retirado do ventre da ignorância

Na última semana, o Brasil se revoltou com o caso de uma menina de apenas dez anos que engravidou após ser estuprada pelo tio. A criança já estava grávida de cinco meses quando denunciou a violência que sofria e optou por não dar continuidade a gestação, o tio dela a violentava desde quando ela tinha seis anos.

O caso gerou uma enorme comoção nacional, uns se diziam contra a decisão da menina em realizar o aborto e outros a apoiavam já que compreendiam a necessidade da criança de não querer seguir com a gravidez fruto de um ato de extrema covardia. A fanática religiosa e Bolsonarista Sara Winter convocou um pequeno grupo de ativistas auto denominados “pró vida” a fazerem baderna na frente do hospital em que a menina estava internada e supostamente incentivar a avó da menor a não autorizar o procedimento. Sara já havia sido presa anteriormente por desacato a autoridades e por espalhar fake news na internet.

Dados de um relatório publicado pelo instituto americano Guttmacher em 2018, afirmam que os países com as maiores taxas de aborto são países pobres e normalmente localizados na África e na Ásia, como Índia, Paquistão, Quênia e Somália. Já os países mais desenvolvidos e com o aborto legalizado por lei, essas taxas são bem baixas e estão presentes em lugares como Suiça, Cingapura, Eslováquia e o Canadá. No Brasil, o aborto é permitido por lei em casos como o de estupro, e mesmo assim, é uma das principais causas de mortes aqui devido a má preparação do sistema de saúde para procedimentos delicados como esse.

Em nosso país, ao contrário do que muita gente pensa, a maior parte das mulheres que abortam são brancas, de classe média, casadas e que já tem pelo menos um filho. A gravidez é recebida de uma forma tão surpresa que muitas dessas mulheres, normalmente com planejamento familiar já traçado, se vêem na necessidade de realizar esse procedimento, uma vez que ele pode ser feito mais seguramente em hospitais privados, com médicos específicos para isso e com um valor dentro do piso salarial dessas moças, ou seja, elas podem sim pagar pelo aborto de forma que esse não comprometa com a vida dela e com a reputação também, já que muitas vezes, o julgamento pelo procedimento é recaído em mulheres pobres e quando elas são estupradas, como o caso da menina de dez anos citado no início desse texto.

Fonte: Laboratório de demografia e estudos populacionais

O aborto em muitas religiões é visto como um atentado a uma vida que está por vir, porém em casos de estupro e má desenvolvimento, os livros sagrados das três religiões monoteístas permitem que a mãe decida o destino de sua gravidez e aí entra a questão do abortamento permitido. Mas muitos religiosos também utilizam essa pauta para atacar o estado de liberdade vigente em um país democrático e oprimir psicologicamente as mulheres com o discurso de “não é sobre seu corpo, mas sobre um corpo que está dentro do seu”, como se essas mulheres ficassem contentes com a idéia de realizar um aborto e isso já não fosse traumático o suficiente. Também não nego o fato de que Voltaire estava certo quando disse que “se os homens engravidassem, talvez o aborto fosse dado nas igrejas ao som de cânticos gregoriano.” Um trágico elóquio para se debater nos dias atuais e em tempos sombrios como os que estamos vivendo.

A constituição brasileira também permite o aborto em casos de estupro, de anencefalia no feto e quando a gestação causa risco de morte à mãe.

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Acredito que legalizar seja a melhor solução, isso não quer dizer que todas as mulheres que engravidarem inesperadamente deverão abortar ou realmente farão isso, essa é a desculpa mais extremista e sem nexo que já escutei, seria como afirmar que legalizar o casamento homoafetivo em um país, faria toda a população “virar” LGBT+. Apesar do procedimento já ser permissível para casos graves, devemos levar em conta que a maioria das mulheres brasileiras são pobres ou periféricas, elas além de não ter uma orientação de saúde e prevenção sexual mais descente, também não tem condições de pagar pelo procedimento ( e por suas sequelas, que são terríveis ) e mesmo se optarem pelo sistema único de saúde e hospitais públicos, correm mais risco de vida ainda, pois sabemos muito bem que o estado não cobre os devidos custos desses hospitais que deveriam ser a porta de tranquilidade e bem estar da população. Já sobre os “cidadãos de bem” que defenderam a idéia megalomaníaca de sara winter e apoiam o sofrimento psicológico daquela criança de dez anos, se fossem suas filhas? talvez seria a pergunta que os fariam refletir mais sobre interferirem em uma questão que não lhes diz respeito. No Brasil de ultimamente, o mais comum é o poste estar urinando no cachorro e o pernilongo estar engolindo a cobra.

Por: Lybia Abaaoud/Beatriz D’angelo

Materiais de apoio:

* https://g1.globo.com/bemestar/noticia/numero-de-abortos-cai-no-mundo-puxado-por-paises-desenvolvidos-com-legalizacao.ghtml

* https://www.huffpostbrasil.com/2018/07/31/aborto-no-brasil-como-os-numeros-sobre-abortos-legais-e-clandestinos-contribuem-no-debate-da-descriminalizacao_a_23486575/